Brexit: Bruxelas abre negociações com os trabalhistas britânicos

Michel Barnier prepara um encontro com o Partido Trabalhista britânico: é mais um passo para isolar a primeira-ministra. Curiosamente, o encontro não é com Jeremy Corbyn. O negociador-chefe da União Europeia para o Brexit, Michel Barnier, tem marcada para a próxima sexta-feira uma reunião com o Partido Trabalhista britânico – oposição aos conservadores da primeira-ministra Theresa May – mas, curiosamente, esse encontro não será mantido com o líder do partido, Jeremy Corbyn, mas com o ‘mayor’ de Londres, Sadiq Khan. Para lá da especulação política que daí resultou, Barnier quer dar uma ajuda explícita à metade britânica que apoia a União Europeia e quer repetir o referendo ao Brexit. Khan tem sido um dos trabalhistas mais ativos nessa frente particular – dado que uma parte do partido está confortável com o Brexit e outra parte, mesmo não estando, não apoia a repetição do referendo. Bruxelas sabe que a repetição é a sua melhor opção e a única forma de solucionar a questão em definitivo: é corrente a ideia de que, perante um novo referendo, uma maioria de britânicos votaria ‘não’ à saída da União Europeia, o que permitiria acabar de uma vez com todos os impasses que fizeram ‘encalhar’ as negociações do Brexit. Sadiq Khan enviou uma mensagem à União em antecipação ao encontro com Barnier, onde escreve que acredita que os trabalhistas serão forçados a opor-se ao acordo ‘mau’ do Brexit, que está nas mãos de Theresa May. É um bom começo de conversa, que passará obrigatoriamente por uma convergência de pontos de vista sobre questões económicas e será também um ótimo palco para dar força ao movimento ‘Voto do Povo’. O movimento – que reuniu em Londres mais de 700 mil pessoas numa manifestação a favor da repetição do referendo – tem no ‘mayor’ de Londres uma das suas faces mais destacadas, e Barnier quer por certo prestar-lhe todo o seu público é notório comprometimento. Khan enfatizará a sua oposição e a dos trabalhistas ao acordo de livre comércio que está a ser negociado em Bruxelas por Theresa May. “Theresa May não conseguiu colocar o interesse nacional à frente da gestão interna do partido nas negociações e está a levar-nos a um mau acordo ou, pior ainda, a nenhum acordo”, disse Khan, citado por vários jornais. “Estou ansioso pela viagem a Bruxelas. Como a marcha pelas ruas de Londres no sábado mostrou, ainda há uma enorme solidariedade com a Europa em todo o Reino Unido – tanto com os cidadãos da União que vivem aqui como com os nossos amigos e aliados europeus”, enfatizou. Do ponto de vista interno, estes avatares de Sadiq Khan não podem deixar de colocar a questão sobre se o ‘mayor’ de Londres está ou não a correr para substituir Jeremy Corbyn à frente dos trabalhistas. Oficialmente, como não podia deixar de ser, a resposta é ‘não’, mas dado o enquadramento político do Reino Unido, ninguém parece ligar muito a ‘oficialidades’. Ao contrário do que parecia óbvio há dois anos, quando ganhou a liderança, Corbyn tem-se mantido solidamente à frente dos destinos dos trabalhistas. Depois de uma primeira fase em que teve de aguentar a oposição interna de muitas figuras emblemáticas do partido – Tony Blair incluído – o eleitorado trabalhista pareceu aceitar com agrado que Corbyn tenha ‘puxado’ o partido para a esquerda, algo que não sucedia há mais de duas décadas. Desse ponto de vista, Jeremy Corbyn acabou por consolidar uma posição que os analistas quase unanimemente consideravam muito pouco segura. Mas uma coisa é liderar a oposição outra é formar um governo. E, numa altura em que todos apontam a realização de eleições antecipadas como uma inevitabilidade depois de março de 2019 – altura em que o Brexit entrará oficialmente em vigor – é bem possível que, como acontece entre os conservadores, os trabalhistas se preparem para mudar o figurino dos últimos dois anos.
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