O ‘smartphone’ no meio de uma guerra comercial

O ‘smartphone’ no meio de uma guerra comercial

A fabricante chinesa viu o caminho para o mercado dos Estados Unidos barrado. Vista pelos norte-americanos como sendo controlada por Pequim e acusada de espionagem, a empresa está focada no mercado europeu. A inteligência artificial e as câmaras são os pontos fortes. O aço e o alumínio, pesados símbolos da Revolução Industrial que começou no século XVIII, foram os materiais recentemente escolhidos por Donald Trump para dar o primeiro tiro numa guerra comercial com a China, já em pleno século XXI. As tarifas impostas às importações destes materiais não são, no entanto, as únicas armas usadas pelo presidente norte-americano no conflito comercial com a segunda maior economia do mundo. Em segundo plano, decorre uma batalha ligada a uma revolução contemporânea – a digital, que envolve chips, inteligência artificial, smartphones, aplicações, apps, dados – muito do que nos liga diariamente à tecnologia. As armas usadas nessa luta são a inovação, a investigação e o desenvolvimento, mas também a espionagem, a contra-espionagem, o roubo de informação e a influência externa. No centro desta batalha está a ambiciosa tecnológica chinesa Huawei. Em janeiro, a operadora norte-americana AT&T rompeu um acordo, que estaria prestes a ser anunciado, para distribuir os smartphones da empresa chinesa. Num mercado onde os fabricantes de equipamento dependem principalmente dos operadores para chegar aos consumidores, foi um duro golpe para a Huawei. A ambição de conquistar um mercado dominado pelo segmento premium, precisamente aquele que a empresa visa através de smartphones que já incluem a inteligência artificial, tornava-se mais difícil, senão impossível. A AT&T não explicou as razões para quebrar o acordo, mas a imprensa norte-americana apontou para razões políticas. Em dezembro, um grupo de congressistas escreveu uma carta à poderosa Federal Communications Commission a criticar um eventual acordo entre uma empresa de telecomunicações norte-americana (cujo nome não mencionou) e a Huawei. O aviso foi claro: “o Congresso há muito que têm preocupações sobre a espionagem chinesa em geral e, em especial, do papel da Huawei nessa espionagem”. O CEO da Huawei, Richard Yu, reagiu de forma expressiva, numa entrevista à CNBC em março. “Os nossos concorrentes estão a tentar de uma certa forma política para nos tentar expulsar do mercado norte-americano, mas não conseguem concorrer na tecnologia, na inovação, portanto concorrem usando a política”. A Huawei tentou depois distanciar-se dos comentários de Yu, adoptando uma posição oficial mais conciliatória, mas já foi tarde para disfarçar a reação inicial. Na sede da Huawei em Shenzhen, no sul da China, os gestores da empresa evitam responder diretamente às perguntas dos jornalistas sobre os problemas nos Estados Unidos. Finalmente, um dos responsáveis admite que “poderá ser um problema”. No entanto, é só uma curta frase, até eventualmente um deslize, que contrasta com o coro de respostas dadas pelos outros gestores. As mensagens centrais são sobre as rígidas regras de segurança que a empresa segue para garantir a proteção dos dados dos consumidores e, com mais veemência, sobre como o resto do mundo oferece suficiente potencial de mercado. Kevin Ho, presidente da divisão de telemóveis, explica o raciocínio da empresa: “O mundo tem 7 mil milhões de pessoas, e nos Estados Unidos estão somente 300 milhões”. A Huawei quer ultrapassar a norte-americana Apple e a sul-coreana Samsung para se tornar na líder na venda de smartphones a nível mundial. Segundo Ho, a meta serve para encorajar a equipa, mas também é um objetivo real, embora a empresa não divulgue o ano em que espera atingi-lo. Foco na Europa Apesar dessa relutância em estabelecer um calendário, o histórico demonstra que a Huawei avança a alta velocidade. A_empresa foi fundada há 30 anos por Ren Zhengfei, um perito em tecnologia que passou vários anos a trabalhar para o exército chinês, alegadamente com um investimento inicial de 3.500 dólares. Nos primeiros anos o principal negócio foi a revenda de componentes para centrais telefónicas, mas progrediu rapidamente para a construção de redes de telefonia fixa e depois móvel nos anos 90, década na qual a Huawei iniciou a expansão internacional. A expansão exponencial deste negócio, o carrier network group, permite afirmar que um terço da população mundial comunica através das 1.500 redes que a empresa construiu. Em 2004, deu o passo seguinte e começou a produzir telemóveis, lançando em 2009 o seu primeiro smartphone. Os resultados ilustram a ambição da tecnológica chinesa. As receitas avançaram 15,7% para 92 mil milhões de dólares no ano passado, permitindo um disparo de 28% no lucro líquido para 7.300 milhões de dólares. O carrier network business continua a representar a maior fatia das receitas (49,3%), mas o consumer business aproxima-se e já está nos 39,4%, com o negócio de serviços a grandes empresas a completar o total. No ano passado, a empresa vendeu 153 milhões smartphones, mais 31,9% do que em 2016. A quota de mercado global é de 10,5%, mas no segmento premium, de equipamento acima preços acima dos 500 dólares, afirma ter atingido 32,7%. Em termos de geografias, a China, onde a Huawei lidera, é o principal mercado. Com os problemas que a empresa enfrenta para vingar nos Estados Unidos, Kevin Ho afirma que o “foco número um” este ano está na Europa, enquanto a empresa também vê potencial na região da Ásia-Pacífico. Em Itália e Espanha a fabricante já tem quotas de mercado acima dos 20%, ajudada pelo crescente reconhecimento da marca, enquanto em Portugal o desempenho também tem sido positivo. Tiago Flores, diretor de vendas do consumer business no país, refere que a marca foi a que mais cresceu em 2017 neste segmento de indústria. “A Huawei atingiu ainda a liderança de mercado em alguns segmentos e acredito que, em geral, ocupa atualmente a segunda posição no mercado nacional de forma destacada”. A melhoria da reputação de uma marca que há alguns anos era vista com alguma desconfiança por ser made in China, é fruto também de parcerias com nomes conhecidos. Além da Google, que fornece o sistema operativo Android, a Huawei juntou-se a empresas como a Audi, a Dolby (para o som dos equipamentos), a Pantone Colour Institute, a Porsche Design e a fabricante de lentes e câmaras Leica. Num mundo de selfies e Instagram, a fotografia é uma das grandes apostas nos telefones da empresa desde 2013, quando lançou o modelo P6. Na campanha de lançamento, em março, da nova série P20, o slogan escolhido foi ‘o renascimento’ da fotografia. “O Huawei P20 Pro tem o sistema de câmara mais avançado do mundo – o primeiro smartphone com tripla câmara co-desenvolvida com a Leica e powered by AI (inteligência artificial)”, afirma Tiago Flores. O diretor de vendas em Portugal realça que a introdução da inteligência artificial em smartphones foi possível devido à aposta da empresa em Investigação e Desenvolvimento. Realça que nos últimos 10 anos a firma investiu 45 milhões de dólares em investigação e em 2016 entrou para o top 10 das marcas que mais investem em I&D no mundo. Com 15 centros dedicados a I&D e 36 centros de inovação, investe 10% das receitas neste campo anualmente. Dos 180 mil funcionários espalhados pelo mundo, 45% trabalham em I&D. “Inteligência Artificial, redes 5G e Cloud são os exemplos mais visíveis deste investimento”, explica Tiago Flores. De aldeia piscatória a tech centre Localizada na província de Guangdong, 17 kilómetros a norte de Hong Kong, a cidade de Shenzhen foi transformada pelo crescimento da Huawei. Em apenas 30 anos, passou de vila piscatória com 30 mil habitantes a metrópole onde residem mais de 12 milhões de pessoas. A batalha tecnológica entre as duas maiores economias do mundo trava-se também no campo das tech hubs. Silicon Valley, na Califórnia, é a ainda visto como o principal centro mundial de inovação tecnológica. A resposta da China está em Shenzhen. Além da Huawei, cuja sede com 60 mil trabalhadores domina a cidade, também a concorrente ZTE, a Tencent (dona do maior portal de internet chinês) e a Foxconn (ironicamente, a empresa que fabrica a maioria dos iPhones da Apple) fazem da cidade a sua base. Num sinal da crescente atrativadade, Shenzhen foi no final do ano passado escolhida pela fabricante aeronáutica europeia Airbus para acolher um novo centro de inovação. Com a corrida tecnológica entre a China e os Estados Unidos ao rubro, o peso da Huawei esteve novamente à vista em março num contexto de uma operação entre duas outras gigantes. Donald Trump vetou a compra da Qualcomm, um produtora norte-americana de processadores, pela Broadcom, uma concorrente baseada na China. O presidente declarou que a operação poderia pôr em causa a segurança nacional dos Estados Unidos. Trump não mencionou a Huawei, que de facto não esteve diretamente envolvida na operação. A decisão foi baseada numa recomendação da Comité de Investimento Externo, que alertava para o risco de a Broadcom reduzir cortar o financiamento para I&D da Qualcomm. O principal impacto poderia ser o fortalecimento da posição da Huawei na inovação , especialmente quando concorrentes na área das redes móveis como a Ericsson e a Nokia enfrentam dificuldades. A Casa Branca vê a Huawei com enorme desconfiança, pois acredita que tem ligações diretas com o governo chinês. A empresa afirma que é detida em 99% pelos empregados, com o fundador a controlar 1%. Questionados sobre a influência estatal na empresa, os gestores da Huawei respondem de forma vaga, explicando que tem de existir uma boa relação, pois o governo apoia todos os esforços para a China avançar no campo tecnológico. No meio de uma guerra tecnológica e económica, qualquer resposta mais concreta seria improvável.
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